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116 anos de luta: a importância das conquistas das mulheres olímpicas

Por Bárbara Fernandes – colaboração especial para o ~dibradoras

Muito se discute hoje em dia sobre feminismo, igualdade de gênero e os diretos da mulher. Numa sociedade com raízes machistas e patriarcais, o lugar comumente designado à essa parcela da população é o de “bela, recatada e do lar”; cuidando da casa, do marido e dos filhos. Apesar de ao longo dos anos essa situação ter melhorado, a partir de mais oportunidades para o gênero feminino tanto na área profissional, social e familiar, o caminho a ser percorrido ainda é longo. No meio esportivo e, principalmente olímpico, o cenário não é nada diferente, pelo contrário, é ainda mais alarmante.

Imagem 1 – Londres 1948: O presidente do Comitê Olímpico Internacional, F Siegfried Edstrom, apresenta as medalhas para os vencedores dos 80 metros de obstáculos femininos. Fanny Blankers-Koen da Holanda conquistou a medalha de ouro, a prata foi para Maureen Gardner da Grã-Bretanha e o bronze para Shirley Strickland da Austrália. (Foto de Hulton Archive / Getty Images).
Londres 1948: O presidente do Comitê Olímpico Internacional, F Siegfried Edstrom, apresenta as medalhas para os vencedores dos 80 metros de obstáculos femininos. Fanny Blankers-Koen da Holanda conquistou a medalha de ouro, a prata foi para Maureen Gardner da Grã-Bretanha e o bronze para Shirley Strickland da Austrália. (Foto de Hulton Archive / Getty Images).

Os Jogos Olímpicos modernos que conhecemos hoje, são inspirados nos antigos jogos gregos. Em sua primeira edição, realizada em Atenas em 1896, não havia sequer uma mulher entre os quase 300 atletas. Segundo o idealizador, Pierre de Frédy (Barão de Coubertin), os esportes praticados eram contrários às “leis da natureza” da mulher.

Quatro anos mais tarde, em sua segunda edição – realizada em Paris, o evento contou com a presença de mulheres, ainda que de forma bastante inexpressiva (2%). O nome que entrou para a história foi o da tenista britânica Charlotte Cooper, campeã nas competições individuais e mistas, foi a primeira mulher a conquistar uma medalha olímpica.

Na edição de 1928, em Amsterdã, as mulheres somavam apenas 10% dos atletas. Nesse período,o destaque vai para Betty Robinson, atleta norte-americana que com apenas 16 anos se tronou a primeira campeã olímpica do atletismo, correndo os 100 metros rasos. Para o Brasil, o jogo virou em 1932, com a nadadora Maria Lenk – primeira brasileira e sulamericana a disputar os Jogos Olímpicos. Ela tinha apenas 17 anos quando o fato ocorreu e, em uma época na qual as mulheres ainda não eram consideradas atletas oficiais. Depois desse feito, a participação feminina se tornou crescente, mas ainda precária. Nos Jogos de Melbourne, em 1956, apenas uma mulher da delegação brasileira participou da competição; Mary Dalva Proença, através dos saltos ornamentais.

Já em Atlanta, em 1996, nossa seleção feminina deu um show, conquistando medalhas de ouro, prata e bronze, com a dupla de vôlei de praia – Jacqueline e Sandra Pires, time de basquete e vôlei de quadra, respectivamente. Na edição de 2008, em Pequim, a judoca Katleyn Quadros atingiu um feito inédito; foi a primeira mulher brasileira a conseguir uma medalha (bronze) em esporte individual. Logo em seguida, na mesma competição, Maurren Maggi conquistou o título de primeira campeã olímpica do Brasil, disputando o salto em distância.

Silvia Izquierdo/AP
Foto: Silvia Izquierdo/AP

No decorrer do tempo, o espaço feminino foi lentamente sendo conquistado, porém, somente na penúltima edição dos Jogos Olímpicos, em 2012, sediada em Londres, foi que as mulheres competiram em todas as modalidades e, que todos os países enviaram mulheres em suas delegações – dentre as modalidades que não abrangiam o gênero feminino, o boxe foi o último a ser adotado. Nessa mesma simbólica Olimpíada, o Brasil deixou sua marca no continente europeu, com a pugilista Adriana Araújo, bronze na categoria peso leve. Em entrevista, a atleta contou que no decorrer de sua carreira o preconceito por ser mulher num esporte taxado “masculino” foi sempre presente; desde os colegas de academia na qual treinava até na hora de conseguir patrocínio.

Eles diziam que eu deveria estar dirigindo um fogão”

Quando pergunto qual o sentimento de ser uma campeã olímpica, mulher e brasileira, a resposta vem fácil: “Meu sentimento foi de uma pessoa realizada, apesar de todas as dificuldades e preconceitos que eu passei em um país que não apoia seus atletas, principalmente as mulheres, eu consegui vencer”. Sobre medidas a serem tomadas para melhorar a situação da mulher no esporte brasileiro, Adriana comenta que o primeiro passo a ser tomado é dentro de casa, onde os pais devem incentivar seus filhos à pratica do esporte sem diferenciar estes por gênero. Ela conclui “nunca desista dos seus sonhos, as dificuldades sempre serão um trampolim pra você se superar”.

Uma conquista muito maior que o ouro: a igualdade. Adriana comemora em Londres (Foto de Jack Guez / AFP / Getty Images).
Uma conquista muito maior que o ouro: a igualdade. Adriana comemora em Londres (Foto de Jack Guez / AFP / Getty Images).

Analisando os dados apresentados na tabela ao lado, verificamos como se deu, de forma quantitativa, a trajetória detabela 2 inserção das mulheres nos jogos olímpicos. No entanto, quando avaliamos a variação no número de mulheres que participaram dos Jogos Olímpicos comparados à variação do número de atletas totais do evento, percebe-se que há um padrão similar entre as alterações até a década de 90. A partir dessa época, a mulher apresenta um padrão de variação mais expressivo que do total de participante. Na última edição dos jogos, Rio 2016, cerca de 45% da delegação brasileira era composta por mulheres – assim, nos cabe questionar se, mesmo com esse número, conseguimos superar as discriminações de gênero que marcam a trajetória das atletas.

Atualmente com 27 anos, Sarah Menezes é uma judoca brasileira e a primeira mulher do país a conquistar uma medalha de ouro neste esporte em Jogos Olímpicos (também em Londres 2012). A atleta conta que foram 12 anos de trabalho desenvolvido até alcançar esse feito e entrar para a história do esporte brasileiro, “era um sonho”, declara. Com a experiência, a judoca afirma que a presença masculina nas Olimpíadas é bem mais expressiva do que a das mulheres, que também são mais jovens e estão em menor número.

Para ela, o esporte deve ser incentivado de um modo geral nas escolas; “Somente com projetos esportivos poderemos possibilitar que mais crianças e jovens se dediquem a uma atividade esportiva e, quem sabe, decidam seguir profissionalmente a carreira de atleta”.

Sarah Menezes no lugar mais alto do pódium após derrotar Alina Dumitru, da Romênia na divisão de 48kg. (Foto disponibilizada no site do Comitê Olímpico Internacional - COI).
Sarah Menezes no lugar mais alto do pódium após derrotar Alina Dumitru, da Romênia na divisão de 48kg. (Foto disponibilizada no site do Comitê Olímpico Internacional – COI).

Em junho, o Comitê Olímpico Internacional (COI) anunciou a instituição de novas modalidades mistas e femininas para os Jogos de 2020, visando aumentar a participação das mulheres. Entre as divulgadas está: 1500m feminino e revezamento 4x100m medley misto na natação, equipe mistas no tiro com arco, revezamento 4x400m misto no atletismo, basquete 3×3 masculino e feminino.

No boxe, duas provas masculinas serão trocadas por provas femininas; na canoagem isso também acontecerá – com três provas. O ciclismo BMX contará com prova estilo livre masculina e feminina e o ciclismo de pista com a prova Madison masculina e feminina.. A esgrima terá disputa por equipes masculina e feminina; o judô terá disputa de equipes mistas; no remo uma prova masculina será trocada por prova feminina; na vela a prova mista Multihull será trocada pela prova mista Foiling Multihull; no tiro esportivo três provas masculinas serão trocadas por provas mistas; o tênis de mesa terá disputa de duplas mistas e o triatlo disputa do revezamento por equipes mistas.

“Estou muito feliz que a Olimpíada passará a ser mais jovem, mais urbana e incluirá mais mulheres”, declarou o presidente do COI, Thomas Bach.

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